Síndrome de Usher: uma doença rara que compromete audição e visão
O que é a síndrome1 de Usher?
A Síndrome1 de Usher é uma doença genética rara que afeta simultaneamente a audição e a visão2 e, em alguns casos, o equilíbrio. Caracteriza-se por perda auditiva neurossensorial associada à retinite pigmentosa (RP), uma doença degenerativa3 da retina4 que provoca perda progressiva da visão2, principalmente periférica. A síndrome1 é herdada de forma autossômica5 recessiva, o que significa que ambos os pais precisam ser portadores do gene alterado para que a criança manifeste a doença.
Existem três tipos principais:
- O tipo 1 apresenta surdez profunda congênita6, comprometimento vestibular7 importante e início precoce da perda visual na infância.
- O tipo 2 cursa com perda auditiva moderada a severa desde o nascimento, equilíbrio preservado e início da perda visual geralmente na adolescência.
- O tipo 3 caracteriza-se por perda auditiva e visual progressivas, iniciando-se na infância tardia ou adolescência, com comprometimento vestibular7 variável.
A prevalência8 estimada varia entre 4 e 17 casos por 100.000 pessoas, sendo os tipos 1 e 2 os mais frequentes. A síndrome1 de Usher é a principal causa genética de surdocegueira no mundo, impactando de forma significativa a qualidade de vida, sem reduzir a expectativa de vida9.
Quais são as causas da síndrome1 de Usher?
As causas da Síndrome1 de Usher são genéticas e resultam de mutações em genes responsáveis pela estrutura e função das células10 sensoriais do ouvido interno11 e da retina4. Já foram identificados mais de dez genes associados à síndrome1, entre os quais se destacam MYO7A (mais comum no tipo 1), USH2A (principal gene relacionado ao tipo 2) e CLRN1 (associado ao tipo 3).
Como dito, essas mutações são herdadas de forma autossômica5 recessiva. Em geral, os pais são heterozigotos (portadores) e não apresentam a síndrome1; nesse cenário, a cada gestação há 25% de chance de a criança desenvolver a síndrome1, 50% de chance de ser portadora e 25% de chance de não herdar a variante. Se um dos pais tiver a síndrome1, sendo o outro apenas portador, o risco para os filhos pode ser diferente.
Os genes envolvidos codificam proteínas12 essenciais para a manutenção dos cílios13 das células10 ciliadas da cóclea e do vestíbulo, bem como para a função dos fotorreceptores14 da retina4 (bastonetes e cones). A disfunção dessas proteínas12 leva à degeneração15 progressiva dessas estruturas. Em determinadas populações, como finlandeses e judeus asquenazitas, o tipo 3 é mais prevalente devido a mutações fundadoras específicas.
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Qual é a fisiopatologia17 da síndrome1 de Usher?
A fisiopatologia17 da Síndrome1 de Usher envolve a disfunção e a degeneração15 progressiva de células10 sensoriais especializadas. No ouvido interno11, as mutações genéticas comprometem a estrutura e a função das células10 ciliadas da cóclea, responsáveis pela conversão do som em impulsos nervosos, resultando em perda auditiva neurossensorial. As células10 ciliadas do sistema vestibular18 também podem ser afetadas, especialmente no tipo 1, causando alterações importantes do equilíbrio desde a infância.
Na retina4, a retinite pigmentosa ocorre devido à degeneração15 inicial dos bastonetes, responsáveis pela visão2 em baixa luminosidade, o que provoca cegueira noturna precoce, seguida pela degeneração15 progressiva dos cones, responsáveis pela visão central19 e pelas cores. Isso leva à perda da visão periférica20, com evolução para a chamada “visão em túnel”.
Os mecanismos celulares incluem defeitos no transporte intracelular, disfunção das proteínas12 ciliares, estresse oxidativo e ativação de vias de apoptose21. Em alguns pacientes, podem surgir complicações oculares associadas, como edema macular22 cistoide e catarata23 precoce, que aceleram a perda da visão central19.
A doença é determinada geneticamente desde o desenvolvimento embrionário, mas os sintomas24 se manifestam e progridem ao longo da vida.
Quais são as características clínicas da síndrome1 de Usher?
As manifestações clínicas variam conforme o tipo da síndrome1. No tipo 1, há surdez profunda congênita6, comprometimento vestibular7 importante desde o nascimento, com atraso para sentar e andar, e início da perda visual ainda na infância, geralmente com cegueira noturna antes dos 10 anos, evoluindo para perda visual severa na idade adulta.
No tipo 2, a perda auditiva é moderada a severa desde o nascimento, predominando nas frequências altas, o equilíbrio é normal e a cegueira noturna costuma iniciar-se na adolescência.
No tipo 3, a audição pode ser normal ao nascimento, mas piora progressivamente na infância tardia ou adolescência, acompanhada de perda visual progressiva e alterações do equilíbrio em cerca de metade dos casos.
Sintomas24 frequentes incluem dificuldade para enxergar em ambientes escuros, tropeços, sensibilidade à luz, vertigem25, ausência ou redução da resposta a sons e, nas crianças, atraso no desenvolvimento da linguagem.
A retinite pigmentosa é uma característica universal da síndrome1 e leva à formação de escotomas26 e à visão2 em túnel. Em adultos, atividades como dirigir, ler e circular em locais pouco iluminados tornam-se progressivamente mais difíceis.
Como o médico diagnostica a síndrome1 de Usher?
O diagnóstico27 da Síndrome1 de Usher é multidisciplinar e baseia-se na avaliação clínica, auditiva, oftalmológica e genética. A investigação inicia-se com história clínica detalhada e exame físico, buscando sinais28 de perda auditiva, visual e vestibular7.
A audição é avaliada por audiometria29 tonal e vocal, além de exames objetivos quando necessários. A função vestibular7 pode ser investigada por videonistagmografia ou testes calóricos.
A avaliação oftalmológica inclui exame de fundo de olho30 com dilatação pupilar, campo visual31 para identificar perda periférica, eletrorretinograma que demonstra redução ou ausência da resposta elétrica da retina4, tomografia de coerência óptica para análise estrutural da retina4 e exames de autofluorescência do fundo de olho30.
A triagem auditiva neonatal permite identificar precocemente muitos casos.
O diagnóstico27 definitivo é feito por meio de testes genéticos, utilizando painéis multigênicos ou sequenciamento completo, capazes de identificar mutações em genes como MYO7A e USH2A. O aconselhamento genético é parte fundamental do manejo, orientando a família quanto ao risco de recorrência32. O diagnóstico27 precoce é essencial para planejamento terapêutico e reabilitação.
Como o médico trata a síndrome1 de Usher?
Atualmente não existe cura para a síndrome1 de Usher, e o tratamento é sintomático33, preventivo34 e multidisciplinar. Para a perda auditiva, aparelhos auditivos são utilizados nos casos de deficiência leve a moderada, principalmente nos tipos 2 e 3, enquanto os implantes cocleares são indicados nos pacientes com surdez profunda, especialmente no tipo 1, idealmente implantados precocemente na infância. A terapia fonoaudiológica, o treinamento auditivo e o uso de língua35 de sinais28 auxiliam na comunicação.
Para a visão2, são utilizados recursos de baixa visão2, como lupas, filtros de luz, softwares de ampliação e programas de reabilitação visual. A suplementação36 de vitamina37 A não é recomendada rotineiramente, devido ao risco de toxicidade38 hepática39 e à falta de benefício comprovado específico para a síndrome1 de Usher, sendo contraindicada em gestantes.
Terapias em investigação incluem terapia gênica direcionada a mutações específicas e estudos com células-tronco40. Para o comprometimento do equilíbrio, a reabilitação vestibular7 por fisioterapia41 melhora a coordenação e reduz o risco de quedas. O suporte educacional, psicológico e social é parte essencial do tratamento, especialmente quando iniciado precocemente.
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Como evolui a síndrome1 de Usher?
A evolução da síndrome1 de Usher é progressiva e variável conforme o tipo. No tipo 1, a surdez e o distúrbio vestibular7 estão presentes desde o nascimento, e a perda visual começa na infância, podendo levar à cegueira legal na idade adulta.
No tipo 2, a audição tende a permanecer relativamente estável, enquanto a visão2 piora gradualmente da adolescência até a vida adulta, com desenvolvimento de visão2 em túnel.
No tipo 3, tanto a audição quanto a visão2 se deterioram progressivamente desde a infância tardia, podendo evoluir para surdez profunda e cegueira legal na meia-idade.
A retinite pigmentosa geralmente progride de cegueira noturna para perda periférica e, posteriormente, para comprometimento central, muitas vezes agravado por catarata23 ou edema macular22. Mesmo com tratamento adequado, a progressão é inevitável, exigindo adaptações contínuas ao longo da vida.
Com acompanhamento especializado, muitos pacientes mantêm autonomia parcial por longos períodos.
Quais são as complicações possíveis da síndrome1 de Usher?
As principais complicações incluem a surdocegueira progressiva, que compromete comunicação, mobilidade e independência funcional. O distúrbio do equilíbrio aumenta o risco de quedas, vertigem25 e limitações em atividades cotidianas. A perda visual pode evoluir para cegueira legal, associando-se a complicações como catarata23 precoce e edema macular22.
Em crianças, são comuns atrasos no desenvolvimento motor e da linguagem, especialmente nos casos de tipo 1. Do ponto de vista psicológico, são frequentes isolamento social, ansiedade e depressão em decorrência da dupla deficiência sensorial. Sem suporte adequado, há maior dependência de cuidadores e dificuldades escolares e profissionais.
Com reabilitação adequada e acompanhamento contínuo, muitas dessas complicações podem ser parcialmente prevenidas ou atenuadas, embora a natureza progressiva da doença permaneça.
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.










