É importante manter seu cérebro ativo para diminuir o risco de Alzheimer e demência? O que mais pode ser feito para evitar problemas de memória?
O embaixador José Osvaldo de Meira Penna completou, no último dia 14 de março, 100 anos de vida. Observar a vida e as obras de um dos mais importantes ensaístas brasileiros permite-nos notar que sua produção intelectual cresceu juntamente com o avançar de sua idade.
Meira Penna fez uma das mais completas críticas ao Patrimonialismo brasileiro. Suas obras são recheadas de livros voltados principalmente à história, filosofia política e sociologia, entre os quais podemos mencionar títulos como Quando mudam as capitais, O Evangelho Segundo Marx, Psicologia do Subdesenvolvimento, O Brasil na idade da razão, dentre vários outros.
Um exemplo como esse nos faz questionar sobre o quanto é importante manter nosso cérebro1 ativo para evitar problemas como o déficit cognitivo2 relacionado à idade ou sobre como funciona a prevenção da doença de Alzheimer3 ou da demência4.
Ao contrário da idade e da genética, certos fatores associados ao risco de doença de Alzheimer3 podem ser controlados. Cientistas estão explorando estratégias de prevenção para determinar se exercício físico, dieta e "jogos cerebrais" podem ajudar a retardar ou prevenir a doença de Alzheimer3 e o declínio cognitivo2 relacionado à idade. Eles também investigam como certas condições médicas, como colesterol5 alto, pressão alta e diabetes mellitus6 influenciam o comprometimento cognitivo2.
Saiba mais sobre "Mal de Alzheimer7" e "Demência4".
O que se sabe até agora?
Até o momento, estudos não demonstraram que, a longo prazo, fatores de saúde8 ou estilo de vida podem prevenir ou retardar a doença de Alzheimer3 ou o declínio cognitivo2 relacionado à idade. Da mesma forma, os resultados dos ensaios clínicos9 não suportam o uso de qualquer medicação particular ou suplemento dietético para prevenir essas condições.
Os resultados dos estudos de pesquisa médica aparecem nas manchetes dos jornais aumentando esperanças de cura para doenças com o Mal de Alzheimer7. No entanto, conhecer o tipo de estudo e como ele foi conduzido pode ajudar a colocar os resultados em uma nova perspectiva.
Um estudo epidemiológico é um estudo observacional que procura fatores comuns que possam explicar porque ou como uma doença ocorre em um determinado grupo de pessoas. Os cientistas coletam informações sobre pessoas em suas rotinas diárias e, em seguida, analisam os dados para ver quais comportamentos ou fatores ambientais estão ligados a uma doença ou a outro resultado. Estudos epidemiológicos não podem nos dizer com certeza se esses fatores realmente podem causar ou prevenir a doença ou condição de saúde8. Com base em estudos epidemiológicos da doença de Alzheimer3, os cientistas podem relatar que uma descoberta está ou não está "associada" à doença de Alzheimer3, mas não se ela afeta diretamente o desenvolvimento ou a progressão da doença.
Por exemplo, alguns estudos epidemiológicos descobriram que pessoas que fazem exercícios físicos são menos prováveis de desenvolver a doença de Alzheimer3 do que pessoas inativas. Mas, pessoas que se exercitam tendem a ser mais saudáveis de outras maneiras do que aqueles que não se exercitam, como ter menos doenças cardíacas, assim como costumam ter uma dieta mais nutritiva. Não sabemos exatamente se o seu menor risco de Alzheimer7 resulta do exercício praticado, de comer de forma mais saudável, se isto reduz o risco de outras doenças, se há uma combinação desses fatores ou algo mais. Dessa forma, não sabemos se o exercício reduzirá diretamente o risco de Alzheimer7.
Os cientistas também usam estudos in vitro (tubo de ensaio) e estudos com animais para aprender sobre uma doença. Este tipo de estudo controla fatores específicos que podem influenciar um resultado de pesquisa, permitindo que os pesquisadores estejam mais certos sobre as possíveis causas de uma doença. No entanto, mostrar uma relação de causa e efeito em amostras de tecido10 ou em animais não significa que a relação será a mesma em seres humanos.
Ensaios clínicos9 randomizados são a melhor maneira de testar diretamente nas pessoas a segurança, eficácia e efeitos colaterais11 de uma medicação ou outro tratamento. Neste tipo de pesquisa, alguns participantes são aleatoriamente designados para receber a intervenção que está sendo testada - digamos, medicação ou exercício - enquanto outros recebem um placebo12 (como uma pílula inativa ou uma intervenção de controle). Quaisquer diferenças nos resultados entre os grupos devem resultar do tratamento em vez de outras diferenças entre os participantes.
Atividade física protege o cérebro1?
Exercícios e outros tipos de atividade física têm muitos benefícios. Estudos mostram que eles são bons para o coração13, manutenção ou diminuição da circunferência da cintura e melhora da capacidade de realizar atividades diárias. Estudos epidemiológicos e alguns estudos de intervenção sugerem que o exercício físico também pode desempenhar um papel na redução do risco de doença de Alzheimer3 e declínio cognitivo2 relacionado à idade.
Leia nosso artigo sobre "Atividade física".
O exercício pode ajudar a atrasar ou retardar o declínio cognitivo2 em idosos. Estudos em animais indicam porque isso pode ser assim. Exercícios aumentam tanto o número de pequenos vasos sanguíneos14 que fornecem sangue15 para o cérebro1 quanto o número de conexões entre as células nervosas16 em ratos. Além disso, os pesquisadores descobriram que o exercício aumenta o nível de um fator de crescimento do nervo (uma proteína chave para a saúde8 do cérebro1) em uma área do cérebro1 que é importante para a memória e o aprendizado.
Os pesquisadores também mostraram que o exercício pode estimular a capacidade do cérebro1 humano para manter conexões de redes antigas e fazer novas conexões que são vitais para a cognição17 saudável. Em um estudo de um ano, 65 idosos se exercitavam diariamente, fazendo um programa de exercício aeróbico com caminhada de 40 minutos ou um programa não aeróbico de exercícios de alongamento e tonificação. No final do ensaio, o grupo da caminhada mostrou melhor conectividade na parte do cérebro1 engajada em "sonhar acordado", imaginando o futuro e relembrando o passado. O grupo da caminhada também melhorou a função executiva18, a capacidade de planejar e organizar tarefas como cozinhar uma refeição, por exemplo.
A dieta é importante?
A investigação sobre os efeitos da dieta na cognição17 está em andamento.
Alguns estudos sugerem que comer certos alimentos pode ajudar a manter o cérebro1 saudável - e que outros podem ser prejudiciais à saúde8 cognitiva19. Uma dieta que inclui muitas frutas, vegetais e grãos integrais e é pobre em gordura20 e açúcar21 pode reduzir o risco de muitas doenças crônicas, incluindo doenças cardíacas e diabetes22 tipo 2. Os pesquisadores estão analisando se uma dieta saudável também pode ajudar a preservar a função cognitiva19 ou reduzir o risco de Alzheimer7.
Estudos têm encontrado, por exemplo, que uma dieta rica em vegetais, especialmente vegetais de folhas verdes e vegetais crucíferos como brócolis, está associada a uma taxa reduzida de declínio cognitivo2. Um estudo epidemiológico relatou que as pessoas que comiam "dieta mediterrânea23" tinham um risco 28% menor de desenvolver déficit cognitivo leve24 (DCL25) e um risco 48% menor de progredir do DCL25 para a doença de Alzheimer3. A dieta mediterrânea23 inclui legumes, frutas, cereais, peixe, azeite, quantidades moderadas de álcool e baixas quantidades de gorduras saturadas26, produtos lácteos, carne e aves.
Saiba mais sobre "Alimentação saudável" e "Dieta mediterrânea23".
Enquanto alguns alimentos podem evitar o declínio cognitivo2, outros alimentos, como gorduras saturadas26 e carboidratos refinados (açúcar21 branco, por exemplo), podem representar um problema. Em um estudo, os cientistas alimentaram ratos com uma dieta "ocidental" rica em gorduras e carboidratos simples por 90 dias. Nos resultados, os ratos alimentados com esta dieta de alta energia se saíam significativamente pior em alguns testes de memória do que os ratos alimentados com uma dieta contendo um terço da gordura20. Notavelmente, os ratos apresentaram escassos resultados em testes que envolviam o hipocampo27, uma parte do cérebro1 que desempenha um papel importante na aprendizagem e na memória.
Alguns cientistas se concentraram no DHA (ácido docosahexaenoico), um ácido graxo ômega-3 encontrado no salmão e em alguns outros peixes. Estudos em ratos, especialmente criados para ter características de doença de Alzheimer3, descobriram que o DHA reduz placas28 beta-amiloides, depósitos de proteína anormal no cérebro1 que são uma marca registrada da doença de Alzheimer3. Embora um ensaio clínico com DHA não tenha mostrado nenhum impacto em pessoas com doença de Alzheimer3 leve a moderada, é possível que suplementos de DHA possam ser eficazes se iniciados antes de sintomas29 cognitivos30 aparecerem. Estes achados são de grande interesse e sugerem possíveis áreas para estudos futuros.
E sobre vitaminas e suplementos dietéticos?
Será que vitaminas ou suplementos dietéticos protegem o cérebro1 da doença de Alzheimer3 e do declínio cognitivo2? Uma área de pesquisa se concentra em antioxidantes, substâncias naturais que parecem combater danos causados por moléculas chamadas radicais livres. Outros estudos estão investigando um composto chamado resveratrol.
Quando uma pessoa envelhece, os radicais livres podem se acumular em células nervosas16, causando danos que podem contribuir para a doença de Alzheimer3. Alguns estudos epidemiológicos e laboratoriais sugerem que os antioxidantes de alimentos ou suplementos dietéticos ajudam a prevenir este dano oxidativo - e diminuem o risco de doença de Alzheimer3 - mas outros estudos não mostraram este efeito. Vitamina31 E, vitamina31 C, vitaminas B, ginkgo biloba e coenzima Q foram todos testados em ensaios clínicos9, mas nenhum demonstrou ser eficaz na prevenção ou retardamento da doença de Alzheimer3.
O resveratrol, um composto encontrado em uvas vermelhas bem como suplementos, parece ter propriedades que podem ajudar a proteger o cérebro1. Estudos observacionais mostraram que o consumo moderado de vinho tinto está associado a uma menor incidência32 de doença de Alzheimer3 e estudos em animais mostraram que o resveratrol pode reduzir os depósitos de substância beta-amiloide no cérebro1. Ele também parece afetar os processos biológicos de doenças relacionadas ao envelhecimento, incluindo a doença de Alzheimer3.
Qual é o efeito de outras doenças crônicas no declínio cognitivo2?
Doenças ou condições de saúde8 relacionadas à idade - como doenças vasculares33, hipertensão arterial34, doenças cardíacas e diabetes22 tipo 2 - podem aumentar o risco de Alzheimer7 e de declínio cognitivo2. Muitos estudos estão analisando se esse risco pode ser reduzido pela prevenção ou controle dessas doenças e condições por meio de medicamentos ou mudanças na dieta e na prática de exercícios físicos.
Grande parte da evidência sobre os possíveis laços entre as doenças vasculares33 e o risco de Alzheimer7 vem de estudos observacionais. Por exemplo, níveis elevados de colesterol5 e obesidade35 durante a vida adulta - conhecidos fatores de risco para a doença cardíaca - também foram associados ao aumento do risco de doença de Alzheimer3. A pressão arterial36 elevada pode ser outro fator de risco37.
Veja mais sobre "Diabetes mellitus6", "Hipertensão arterial34", "Obesidade35" e "Hiperlipidemia38".
Um ensaio clínico do National Institutes of Health (NIH) dos Estados Unidos está investigando como a redução da pressão arterial36 para níveis abaixo ou iguais aos recomendados atualmente pode afetar o declínio cognitivo2 e o desenvolvimento de DCL25 e doença de Alzheimer3. Os participantes são idosos com pressão arterial sistólica39 elevada que têm história de doença cardíaca ou acidente vascular cerebral40 ou estão em risco para essas condições.
A diabetes mellitus6 é outra doença que tem sido associada à doença de Alzheimer3. Pesquisas anteriores sugerem que a produção anormal de insulina41 (insulina41 é o hormônio42 envolvido na diabetes22) contribui para alterações cerebrais relacionadas ao Alzheimer7. Restaurar a função normal da insulina41 no cérebro1 pode fornecer benefícios cognitivos30?
Os resultados até agora são heterogêneos. Um grande estudo clínico financiado pelo NIH comparou o tratamento intensivo de redução da glicose43 com o tratamento padrão em quase 3.000 idosos diabéticos. Após 40 meses, os dois grupos não apresentaram diferença significativa na função cognitiva19. Em contraste, o teste piloto de um spray de insulina41 nasal mostrou resultados promissores. Um ensaio clínico está testando este tratamento potencial em idosos com DCL25 ou doença de Alzheimer3 leve a moderada para ver se ele pode melhorar a memória e o desempenho de funções diárias.
Estudos adicionais e ensaios clínicos9 estão pesquisando se medicações para doenças cardiovasculares44 e diabetes22 podem prevenir a doença de Alzheimer3. Estas terapias incluem aspirina, medicamentos utilizados para tratar a pressão arterial36 elevada e outras condições cardíacas, e os medicamentos para diabetes22 metformina45 e pioglitazona.
É importante manter seu cérebro1 ativo?
Permanecer cognitivamente ativo ao longo da vida - através de engajamento social ou estimulação intelectual - está associado a um menor risco de doença de Alzheimer3. Vários estudos observacionais ligam a saúde8 cognitiva19 ao engajamento social através do trabalho, do voluntariado ou da convivência com outras pessoas. Atividades mentalmente estimulantes, como ler livros e revistas, ir a palestras e jogar jogos também estão ligados a manter a mente saudável e ativa.
Em um grande estudo com pessoas idosas saudáveis, os pesquisadores observaram uma relação entre a atividade social mais frequente e uma melhor função cognitiva19. Não está claro se a cognição17 melhorada resultou da própria interação social ou de fatores relacionados, como o aumento da estimulação intelectual, que geralmente acompanha a interação social. Outros estudos estão explorando essas relações.
As atividades intelectualmente estimulantes também podem reduzir o risco de Alzheimer7, segundo estudos. Um grande estudo observacional analisou o impacto de atividades comuns como ouvir rádio46, ler jornais, jogar quebra-cabeças e visitar museus. Os investigadores pediram a mais de 700 freiras, sacerdotes e religiosos idosos para descreverem a quantidade de tempo que passaram fazendo essas atividades. Após 4 anos, o risco de desenvolver a doença de Alzheimer3 foi 47% menor, em média, para aqueles que fizeram as atividades em um ritmo mais frequente do que para aqueles que as realizaram menos frequentemente.
Um estudo mais recente mostrou que as pessoas com menos tempo de educação formal que se envolveram em atividades como leitura, palavras cruzadas e escrita de cartas executaram testes de memória tão bem quanto seus pares formalmente educados por mais tempo. Ter menos anos de educação tem sido associado a um maior risco de demência4. São necessárias mais pesquisas para verificar se as atividades cognitivas cotidianas podem reduzir o risco de declínio cognitivo2 em pessoas com menos educação.
O treinamento cognitivo2 formal também parece ter benefícios cognitivos30. No ensaio clínico Advanced Cognitive Training for Independent and Vital Elderly (ACTIVE), por exemplo, adultos saudáveis de 65 anos ou mais participaram de 10 sessões de treinamento em memória, treinamento de raciocínio ou treinamento de velocidade de processamento. As sessões melhoraram as habilidades mentais dos participantes na área em que foram treinados. Essas melhorias persistiram 10 anos após o treinamento ter sido concluído.
Outra abordagem é testar o impacto do treinamento cognitivo2 formal com e sem exercício aeróbico. Por exemplo, um estudo clínico financiado pelo National Institute on Aging (NIA) está investigando a eficácia do treinamento cognitivo2 sozinho e combinado com o exercício aeróbico em pessoas com DCL25 para ver se ele pode prevenir ou retardar a doença de Alzheimer3. Outros estudos estão em andamento em idosos saudáveis para ver se o exercício e/ou o treinamento cognitivo2 (por exemplo, um jogo de videogame mais difícil) pode atrasar ou prevenir o declínio cognitivo2 relacionado à idade.
Outros tipos de treinamento cognitivo2 formal estão sendo estudados em idosos saudáveis para explorar seu impacto no declínio cognitivo2 relacionado à idade, tais como aprendizagem de fotografia digital, quilting e serviços voluntários em escolas.
Como um cérebro1 ativo pode prevenir a doença de Alzheimer3?
As razões para o aparente vínculo entre engajamento social ou estimulação intelectual e risco de Alzheimer7 não são inteiramente claras, mas os cientistas oferecem essas possibilidades:
Tais atividades podem proteger o cérebro1 estabelecendo uma "reserva cognitiva19", a habilidade do cérebro1 para operar efetivamente mesmo quando está danificado ou quando alguma função cerebral estiver interrompida. Essas atividades podem ajudar o cérebro1 a se tornar mais adaptável em algumas funções mentais, de modo que possam compensar a diminuição de outras funções. Pessoas que se envolvem nessas atividades podem ter outros fatores de estilo de vida que os protegem contra a doença de Alzheimer3.
Considera-se também a possibilidade de que ter menos envolvimento com outras pessoas ou com atividades intelectualmente estimulantes pode ser o resultado de efeitos muito precoces da doença de Alzheimer3, ao invés de ser sua causa.
Leia também: "Quando a perda de memória não é normal?" e "Como melhorar a sua memória?".
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.










