Doenças metabólicas hereditárias e adquiridas: entenda as diferenças e quando suspeitar
O que são doenças metabólicas?
Doenças metabólicas são enfermidades causadas por alterações no conjunto de processos químicos que o organismo utiliza para transformar os alimentos em energia, construir e reparar tecidos e eliminar resíduos, processo conhecido como metabolismo1. O metabolismo1 é responsável pela produção das substâncias necessárias ao funcionamento das células2 e pela manutenção de praticamente todas as funções vitais do organismo. Quando ocorre alguma alteração nesse processo, como deficiência ou ausência de uma enzima3, alterações hormonais, defeitos em proteínas4 transportadoras, acúmulo de determinadas substâncias ou deficiência de outras, podem surgir as chamadas doenças metabólicas ou distúrbios metabólicos.
Há dois grandes grupos principais dessas doenças. O primeiro é formado pelas doenças metabólicas hereditárias, também chamadas de erros inatos do metabolismo1, que geralmente são raras e costumam manifestar-se desde o nascimento ou durante a infância, embora algumas possam surgir apenas na adolescência ou na vida adulta. O segundo grupo corresponde às doenças metabólicas adquiridas, muito mais frequentes na população, que se desenvolvem ao longo da vida em consequência da interação entre fatores genéticos, alimentação inadequada, sedentarismo5, excesso de peso, envelhecimento, alterações hormonais e outros fatores ambientais.
Quais são as principais doenças metabólicas hereditárias?
1. Fenilcetonúria6
A fenilcetonúria6 é uma doença genética rara em que o organismo não consegue metabolizar adequadamente o aminoácido fenilalanina7 devido à deficiência da enzima3 fenilalanina7-hidroxilase ou, mais raramente, por alterações no metabolismo1 da tetraidrobiopterina (BH4), cofator necessário para a atividade dessa enzima3. O acúmulo de fenilalanina7 pode causar lesão8 cerebral progressiva, deficiência intelectual e alterações neurológicas quando a doença não é tratada desde os primeiros dias de vida.
O diagnóstico9 precoce é realizado por meio do teste do pezinho, permitindo o início imediato do tratamento. Embora não tenha cura, a doença pode ser controlada com dieta pobre em fenilalanina7 durante toda a vida, associada, em casos selecionados, ao uso de sapropterina, uma forma sintética de BH4, ou outras terapias específicas.
2. Doença de Gaucher
A doença de Gaucher é uma doença genética hereditária rara causada pela deficiência da enzima3 glicocerebrosidase (β-glicosidase ácida). Como consequência, ocorre acúmulo do glicocerebrosídeo10 principalmente no baço11, fígado12, medula óssea13 e, em alguns tipos da doença, no sistema nervoso14.
Os pacientes podem apresentar aumento do fígado12 e do baço11, anemia15, redução das plaquetas16, dores ósseas e fraturas. Embora não exista cura, a terapia de reposição enzimática e, em alguns casos, a terapia de redução de substrato permitem excelente controle da doença, melhorando significativamente a qualidade de vida e o prognóstico17 quando iniciadas precocemente.
3. Doença de Fabry
A doença de Fabry é uma doença genética rara causada por mutações no gene GLA, localizado no cromossomo18 X, que levam à deficiência da enzima3 alfa-galactosidase A. Como resultado, ocorre acúmulo progressivo de globotriaosilceramida (Gb3) em diferentes tecidos, especialmente vasos sanguíneos19, rins20, coração21 e sistema nervoso14.
Por ser uma doença ligada ao cromossomo18 X, geralmente apresenta manifestações mais graves nos homens, embora muitas mulheres também possam desenvolver sintomas22 importantes. Entre as manifestações estão dor neuropática23, diminuição da sudorese24, lesões25 cutâneas26 (angioceratomas), insuficiência renal27, cardiomiopatia e acidente vascular cerebral28 em idade precoce. O tratamento inclui terapia de reposição enzimática ou terapia oral com chaperona farmacológica (migalastate) em pacientes elegíveis, além do manejo das complicações.
4. Doenças mitocondriais
As doenças mitocondriais constituem um grupo heterogêneo de doenças genéticas causadas por mutações no DNA mitocondrial ou no DNA nuclear que comprometem a produção de energia pelas mitocôndrias29. Como essas organelas são responsáveis pela geração de ATP30 por meio da fosforilação oxidativa, tecidos com elevada demanda energética, como cérebro31, músculos32, coração21, olhos33 e fígado12, costumam ser os mais afetados.
As manifestações clínicas são bastante variadas e podem incluir fraqueza muscular, intolerância ao exercício, convulsões, perda auditiva, cardiomiopatia, diabetes34, alterações visuais e comprometimento neurológico progressivo.
5. Fibrose cística35
A fibrose cística35, também chamada de mucoviscidose36, é uma doença genética crônica causada por mutações no gene CFTR, responsável pelo transporte de cloro e bicarbonato através das membranas celulares. Essa alteração provoca produção de secreções espessas e viscosas que acometem principalmente pulmões37, pâncreas38, intestino, fígado12 e aparelho reprodutor.
Embora seja tradicionalmente classificada como uma doença genética multissistêmica e não como um erro inato clássico do metabolismo1, ela apresenta importantes repercussões metabólicas, especialmente relacionadas à insuficiência39 pancreática, desnutrição40 e alterações nutricionais. Atualmente, além do tratamento das complicações respiratórias e digestivas, muitos pacientes podem ser beneficiados pelos moduladores da proteína CFTR, que modificam a evolução da doença em indivíduos com mutações elegíveis.
6. Doença de Wilson41
A doença de Wilson41, também chamada de degeneração42 hepatolenticular, é um distúrbio hereditário do metabolismo1 do cobre causado por mutações no gene ATP7B, herdadas de forma autossômica43 recessiva.
Em indivíduos saudáveis, o excesso de cobre é eliminado pela bile44. Na doença de Wilson41, esse mecanismo encontra-se comprometido, levando ao acúmulo progressivo de cobre principalmente no fígado12, cérebro31, córnea45 e outros tecidos.
As manifestações podem incluir hepatite46, cirrose47, tremores e alterações psiquiátricas e neurológicas, além do anel de Kayser-Fleischer, observado em muitos pacientes com acometimento neurológico. O tratamento baseia-se em medicamentos quelantes do cobre, como penicilamina ou trientina, além do uso de sais de zinco em situações específicas, permitindo excelente controle da doença quando iniciado precocemente.
Leia também sobre "Síndrome48 cardiorrenal metabólica" e "Síndrome48 Ovariana Metabólica Poliendócrina".
Quais são as principais doenças metabólicas adquiridas?
7. Diabetes mellitus49 tipo 2
O diabetes mellitus49 tipo 2 é uma doença metabólica crônica caracterizada por níveis elevados de glicose50 no sangue51 decorrentes principalmente da resistência à insulina52 e da perda progressiva da capacidade das células beta pancreáticas53 de produzir esse hormônio54. A insulina55 permite a entrada da glicose50 nas células2 para produção de energia. Na resistência à insulina52, os tecidos respondem menos à sua ação, levando inicialmente ao aumento compensatório da produção de insulina55 e, posteriormente, ao esgotamento parcial da função pancreática, resultando em hiperglicemia56.
Os principais fatores de risco incluem excesso de peso, obesidade57, sedentarismo5, histórico familiar, idade avançada, hipertensão arterial58, dislipidemia, síndrome metabólica59, diabetes gestacional60 prévio e algumas condições étnicas e genéticas que aumentam a suscetibilidade à doença.
8. Obesidade57
A obesidade57 é uma doença crônica complexa caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura61 corporal capaz de comprometer a saúde62. Atualmente é reconhecida como uma doença multifatorial, resultante da interação entre fatores genéticos, hormonais, ambientais, comportamentais e sociais.
O diagnóstico9 baseia-se principalmente no índice de massa corporal63 (IMC64), sendo considerada obesidade57 quando o IMC64 é igual ou superior a 30 kg/m², classificada em graus I, II e III. Entretanto, a avaliação clínica deve incluir também a circunferência abdominal, a distribuição da gordura61 corporal e a presença de complicações associadas, uma vez que a gordura61 visceral está fortemente relacionada ao aumento do risco cardiovascular e metabólico.
9. Dislipidemias
As dislipidemias correspondem às alterações nos níveis sanguíneos de colesterol65 e triglicerídeos, incluindo elevação do colesterol65 LDL66, redução do colesterol65 HDL67 e aumento dos triglicerídeos.
Essas alterações aumentam significativamente o risco de aterosclerose68, infarto do miocárdio69, acidente vascular cerebral28 (AVC) e doença arterial periférica. Na maioria das vezes, não produzem sintomas22, motivo pelo qual são frequentemente identificadas apenas durante exames laboratoriais de rotina.
As dislipidemias podem ser primárias (genéticas) ou secundárias, associadas a doenças como diabetes34, hipotireoidismo70, doença renal71 crônica ou ao uso de determinados medicamentos.
10. Esteatose hepática72
A esteatose hepática72 consiste no acúmulo excessivo de gordura61 dentro dos hepatócitos. Considera-se esteatose73 quando a gordura61 representa mais de 5% do peso do fígado12.
É uma das doenças hepáticas74 mais frequentes no mundo e está fortemente associada à obesidade57, diabetes tipo 275, resistência à insulina52 e síndrome metabólica59.
Atualmente, a terminologia mais moderna engloba a esteatose73 associada à disfunção metabólica sob a denominação de doença hepática76 esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), anteriormente conhecida como doença hepática76 gordurosa não alcoólica (DHGNA). Embora geralmente seja silenciosa, uma parcela dos pacientes pode evoluir com inflamação77 hepática76, fibrose78, cirrose47 e carcinoma79 hepatocelular.
11. Hipotireoidismo70
O hipotireoidismo70 é uma condição caracterizada pela produção insuficiente dos hormônios tireoidianos, responsáveis pela regulação do metabolismo1 corporal.
A redução desses hormônios diminui a velocidade do metabolismo1 e pode comprometer praticamente todos os órgãos e sistemas, provocando sintomas22 como fadiga80, ganho de peso, intolerância ao frio, pele81 seca, constipação82 intestinal, sonolência e lentificação dos reflexos.
A causa mais comum é a tireoidite de Hashimoto, uma doença autoimune83. Outras causas incluem cirurgia da tireoide84, tratamento com iodo radioativo85, deficiência de iodo, alguns medicamentos e doenças da hipófise86 ou do hipotálamo87.
12. Gota88
A gota88, também denominada artrite89 gotosa, é uma doença inflamatória causada pelo depósito de cristais de urato monossódico nas articulações90 e tecidos periarticulares.
O ácido úrico é um produto natural do metabolismo1 das purinas e normalmente é eliminado pelos rins20. A doença pode surgir devido à diminuição da eliminação renal71 do ácido úrico, produção aumentada ou ambos os mecanismos.
Entre os fatores de risco estão obesidade57, síndrome metabólica59, doença renal71 crônica, dieta rica em purinas, consumo excessivo de bebidas alcoólicas, especialmente cerveja, bebidas adoçadas com frutose91 e uso de determinados medicamentos, como diuréticos92.
13. Síndrome metabólica59
A síndrome metabólica59 é um conjunto de alterações metabólicas e cardiovasculares que aumentam significativamente o risco de diabetes mellitus49 tipo 2, infarto do miocárdio69, acidente vascular cerebral28 e doença cardiovascular em geral.
O diagnóstico9 é estabelecido quando estão presentes critérios definidos por sociedades científicas, incluindo obesidade57 abdominal, hiperglicemia56 ou diabetes34, hipertensão arterial58, triglicerídeos elevados e redução do colesterol65 HDL67. Esses fatores costumam estar relacionados à resistência à insulina52, considerada um dos principais mecanismos fisiopatológicos da síndrome48.
Veja mais em "O que significa o ganho de peso para o nosso organismo?"
Referências:
As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente dos sites da Mayo Clinic, da Encyclopedia Britannica e da BVS - Biblioteca Virtual em Saúde.
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.










