Zigomicose ou mucormicose: o que é? Como identificar e tratar?
O que é zigomicose / mucormicose?
A zigomicose é uma infecção1 fúngica2 invasiva rara, grave e potencialmente fatal, pertencente ao grupo das mucormicoses. Trata-se de uma doença oportunista causada por fungos da ordem Mucorales, especialmente dos gêneros Rhizopus, Mucor, Rhizomucor e Lichtheimia (anteriormente denominada Absidia).
O termo “zigomicose” deriva do antigo enquadramento taxonômico desses fungos como zigomicetos, atualmente em desuso. Na literatura médica contemporânea, o termo preferido é mucormicose, embora “zigomicose” ainda seja encontrado em alguns contextos clínicos e acadêmicos.
A forma mais conhecida é a mucormicose rinocerebral (ou rino-órbito-cerebral), que acomete cavidades nasais, seios paranasais3, órbita e sistema nervoso central4. Outras apresentações incluem as formas pulmonar, cutânea5, gastrointestinal e disseminada, todas com potencial de evolução rápida e grave.
Quais são as causas da zigomicose / mucormicose?
A zigomicose é causada pela inalação, inoculação6 direta na pele7 ou ingestão de esporos8 fúngicos9 amplamente distribuídos no ambiente, incluindo solo, matéria orgânica em decomposição, poeira, ar e alimentos.
Em indivíduos imunocompetentes, o sistema imunológico10 geralmente elimina os esporos8 sem repercussão clínica. No entanto, em pessoas com comprometimento imunológico, os fungos podem germinar, invadir tecidos e causar infecção1 invasiva.
Os principais fatores predisponentes incluem:
- diabetes mellitus11 mal controlado, especialmente na presença de cetoacidose diabética12;
- uso de corticosteroides, quimioterapia13 ou outros imunossupressores;
- neutropenia14 prolongada;
- transplante de órgãos sólidos ou de células-tronco15 hematopoéticas;
- neoplasias16 hematológicas;
- insuficiência renal17 crônica;
- desnutrição18 grave;
- trauma, queimaduras ou feridas contaminadas;
- e infecção1 pelo HIV19 em estágios avançados.
Alterações metabólicas como hiperglicemia20, acidose21 e aumento do ferro livre circulante favorecem o crescimento fúngico22, explicando a maior incidência23 em pacientes com diabetes24 descompensado.
Qual é a fisiopatologia25 da zigomicose / mucormicose?
A fisiopatologia25 da mucormicose baseia-se na capacidade dos fungos da ordem Mucorales de invadir tecidos e, principalmente, vasos sanguíneos26 (angioinvasão). Após a entrada dos esporos8 no organismo, ocorre sua germinação27, com formação de hifas28 largas, irregulares, paucisseptadas ou não septadas, de crescimento rápido.
Essas hifas28 aderem ao endotélio vascular29, invadem a parede dos vasos e provocam lesão30 endotelial, trombose31, redução do fluxo sanguíneo, isquemia32 e necrose33 tecidual. Esse processo explica tanto a progressão acelerada da doença quanto a dificuldade de penetração dos antifúngicos em áreas necrosadas.
Além disso, condições como hiperglicemia20, cetoacidose diabética12, neutropenia14 e imunossupressão34 comprometem mecanismos de defesa, especialmente a ação de neutrófilos35 e macrófagos36, reduzindo a contenção da infecção1. O aumento do ferro livre plasmático, comum na cetoacidose diabética12, atua como fator de crescimento para os fungos, agravando ainda mais o quadro e facilitando sua disseminação.
Leia sobre "Micoses da pele7 e de seus anexos37", "Micoses superficiais" e "Exame micológico".
Quais são as características clínicas da zigomicose / mucormicose?
A zigomicose caracteriza-se por evolução rápida, comportamento altamente invasivo e tendência à necrose33 tecidual extensa, com predileção por estruturas vasculares38. As manifestações clínicas variam conforme o local acometido.
Na forma rinocerebral, a mais frequente, os sintomas39 iniciais incluem obstrução nasal, rinorreia40 escura ou sanguinolenta41, dor facial, cefaleia42, febre43 e edema44 facial. Com a progressão, podem surgir lesões45 necróticas enegrecidas na mucosa46 nasal ou no palato47, proptose, diplopia48, perda visual, paralisias de nervos cranianos e rebaixamento do nível de consciência.
Na forma pulmonar, observam-se febre43 persistente, tosse, dor torácica, dispneia49 e, em alguns casos, hemoptise50.
A forma cutânea5 geralmente se manifesta como lesões45 eritematosas51 dolorosas que evoluem rapidamente para necrose33, especialmente em áreas de trauma ou queimadura.
Já a forma disseminada pode acometer múltiplos órgãos, como cérebro52, rins53 e coração54, estando associada a altas taxas de mortalidade55.
Como o médico diagnostica a zigomicose / mucormicose?
O diagnóstico56 da mucormicose requer alto grau de suspeição clínica, especialmente em pacientes com fatores de risco e evolução rápida. A avaliação inclui exame clínico minucioso, com atenção para sinais57 de necrose33 tecidual, além de exames de imagem como tomografia computadorizada58 e ressonância magnética59, que permitem avaliar a extensão da doença e o envolvimento de estruturas profundas, como órbita e sistema nervoso central4.
O exame histopatológico é o padrão-ouro, demonstrando hifas28 largas, irregulares e paucisseptadas invadindo vasos sanguíneos26. A cultura fúngica2 pode ser realizada, mas apresenta sensibilidade limitada e possibilidade de resultados falso-negativos.
A confirmação diagnóstica precoce é fundamental para o início imediato do tratamento e melhora do prognóstico60.
Como o médico trata a zigomicose / mucormicose?
O tratamento da zigomicose deve ser iniciado de forma urgente e agressiva, baseando-se em três pilares principais.
O primeiro consiste na correção dos fatores predisponentes, incluindo controle rigoroso da glicemia61, tratamento da acidose metabólica62 e ajuste da imunossupressão34 sempre que possível.
O segundo pilar é a terapia antifúngica sistêmica, sendo a anfotericina B lipossomal a droga de primeira linha, devido à sua maior eficácia e menor toxicidade63 renal64 em comparação com formulações convencionais. Isavuconazol e posaconazol são alternativas válidas, especialmente em terapia de consolidação ou em casos de intolerância.
O terceiro pilar é o desbridamento65 cirúrgico precoce e agressivo, com remoção de todo o tecido66 necrosado, medida essencial para reduzir a carga fúngica2 e permitir melhor penetração do antifúngico.
A duração do tratamento é prolongada e deve ser individualizada, podendo se estender por semanas ou meses, conforme a resposta clínica, radiológica e imunológica do paciente.
Como evolui a zigomicose / mucormicose?
A evolução da mucormicose é tipicamente rápida e potencialmente devastadora, especialmente quando o diagnóstico56 e o tratamento são tardios. Sem tratamento, a mortalidade55 é extremamente elevada. Mesmo com manejo adequado, a mortalidade55 permanece significativa, variando de acordo com a forma clínica, o tempo até o diagnóstico56 e as condições clínicas do paciente.
Pacientes que recebem diagnóstico56 precoce, tratamento antifúngico adequado e intervenção cirúrgica oportuna apresentam melhores desfechos. A recuperação costuma ser lenta e frequentemente associada a sequelas67 funcionais e estéticas, sobretudo nas formas rinocerebrais.
Quais são as complicações possíveis com a zigomicose / mucormicose?
As complicações da zigomicose são graves e frequentemente fatais, decorrentes da angioinvasão e necrose33 tecidual extensa. Entre as principais estão:
- destruição de tecidos faciais e ósseos;
- perda visual irreversível;
- comprometimento neurológico permanente;
- trombose31 vascular68;
- disseminação sistêmica da infecção1;
- insuficiência respiratória69;
- e sepse70.
O óbito71 é uma evolução frequente nos casos graves, especialmente na ausência de diagnóstico56 e tratamento precoces.
Devido à elevada complexidade da doença, o manejo deve ser multidisciplinar, envolvendo especialistas em infectologia, otorrinolaringologia, cirurgia, terapia intensiva72 e outras áreas, com o objetivo de reduzir complicações e melhorar a sobrevida73 e a qualidade de vida dos pacientes.
Veja também sobre "Mancha e coceira na virilha: pode ser Tinea cruris", "Geotricose" e "Micose74 de unha ou onicomicose75".
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.










