Desrealização: entenda o transtorno em que o mundo parece irreal ou estranho
A desrealização é um transtorno dissociativo caracterizado pela sensação de que o ambiente ao redor parece estranho, distante ou irreal, apesar de o indivíduo manter a consciência de que essa percepção não corresponde à realidade. Geralmente está associada à ansiedade, ao estresse intenso, ao trauma psicológico ou ao uso de substâncias psicoativas, podendo também ocorrer em algumas doenças neurológicas.
O diagnóstico1 é clínico e o tratamento baseia-se principalmente em psicoterapia, controle dos fatores desencadeantes e tratamento das condições associadas. Embora possa causar grande sofrimento, a maioria dos pacientes apresenta boa evolução com acompanhamento adequado.
- O que é desrealização?
- Quais são as causas da desrealização?
- Qual é a fisiopatologia2 da desrealização?
- Quais são as características clínicas da desrealização?
- Como o médico diagnostica a desrealização?
- Como o médico trata a desrealização?
- Como evolui a desrealização?
- Quais são as complicações possíveis da desrealização?
O que é desrealização?
A desrealização é uma alteração da percepção e da experiência subjetiva da realidade, na qual o indivíduo sente que o mundo ao seu redor parece estranho, artificial, distante ou irreal. Pessoas com desrealização frequentemente descrevem a sensação de estarem vivendo em um sonho, em um filme ou atrás de um “véu invisível”, como se houvesse uma separação entre elas e o ambiente externo.
Apesar dessa sensação intensa de estranheza, o indivíduo geralmente mantém a consciência de que a realidade objetiva não mudou, reconhecendo que a alteração está em sua própria percepção. Essa preservação do senso crítico é uma característica fundamental do quadro.
A desrealização pode ocorrer isoladamente, mas frequentemente aparece associada à despersonalização, condição em que o indivíduo sente estranhamento em relação a si mesmo, ao próprio corpo ou aos próprios pensamentos. Ambas compõem o transtorno de despersonalização/desrealização, descrito na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) e no Manual Diagnóstico1 e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR).
Quais são as causas da desrealização?
Esse fenômeno pode ocorrer de maneira transitória em pessoas saudáveis, especialmente em situações de estresse intenso, privação de sono ou fadiga3 extrema. Entretanto, quando os episódios são recorrentes, prolongados ou persistentes, causam sofrimento significativo ou prejuízo funcional e não são mais bem explicados por outra condição médica ou pelo uso de substâncias, pode-se caracterizar o transtorno de despersonalização/desrealização.
As causas da desrealização são múltiplas e envolvem fatores psicológicos, neurológicos e biológicos. Em muitos casos, o quadro surge como mecanismo de defesa diante de situações emocionalmente intensas. Entre os fatores psicológicos, destacam-se:
- estresse intenso;
- transtornos de ansiedade, especialmente o transtorno do pânico;
- depressão;
- transtorno de estresse pós-traumático (TEPT);
- abuso físico, emocional ou sexual;
- e experiências traumáticas na infância.
Eventos traumáticos atuais também podem desencadear uma resposta dissociativa do cérebro4, levando o indivíduo a desconectar-se parcialmente da experiência emocional da realidade como forma de proteção.
A desrealização também pode surgir em associação ao uso de substâncias psicoativas, como cannabis, LSD, anfetaminas, cocaína, cetamina e outras drogas alucinógenas, além do álcool. Tanto a intoxicação quanto a abstinência de algumas substâncias podem desencadear episódios dissociativos. Em jovens predispostos à ansiedade, o uso de cannabis pode precipitar episódios intensos de desrealização e pânico.
Entre as causas neurológicas e clínicas incluem-se:
- epilepsia5 do lobo temporal;6
- alguns tipos de enxaqueca7;
- traumatismo8 cranioencefálico;
- distúrbios vestibulares9;
- privação severa de sono;
- fadiga3 extrema;
- e, mais raramente, algumas doenças metabólicas ou neurológicas.
Indivíduos com elevada sensibilidade emocional, tendência à introspecção excessiva ou histórico de transtornos dissociativos e ansiosos apresentam maior vulnerabilidade ao desenvolvimento da desrealização.
Leia também sobre "Principais transtornos mentais", "Transtorno dissociativo de identidade" e "Impulsividade".
Qual é a fisiopatologia2 da desrealização?
A fisiopatologia2 da desrealização ainda não é completamente compreendida, mas estudos neurobiológicos demonstram a participação de múltiplos circuitos cerebrais relacionados à emoção, à percepção, à integração sensorial e à consciência.
Uma das hipóteses mais aceitas é que a desrealização represente um mecanismo dissociativo de proteção cerebral diante de sofrimento emocional intenso. Nessa situação, ocorreria uma redução da integração entre a percepção sensorial e a resposta emocional, fazendo com que o ambiente seja percebido normalmente do ponto de vista visual e auditivo, mas sem a sensação habitual de familiaridade ou significado emocional.
Estudos de neuroimagem funcional mostram alterações em diversas regiões cerebrais. Observa-se frequentemente aumento da atividade do córtex pré-frontal medial e dorsolateral, associado à redução da ativação da amígdala10 e de outras estruturas do sistema límbico. Esse padrão pode produzir uma percepção excessivamente racionalizada e emocionalmente "anestesiada" do ambiente.
Também parecem existir alterações na conectividade entre áreas responsáveis pela integração dos estímulos visuais, auditivos, táteis e emocionais. Neurotransmissores como serotonina, glutamato, dopamina11, ácido gama-aminobutírico (GABA12) e opioides endógenos provavelmente participam desse processo, embora nenhum mecanismo isolado explique todos os casos.
Quais são as características clínicas da desrealização?
A principal característica clínica é a sensação persistente ou recorrente de irrealidade do ambiente. Os pacientes utilizam descrições variadas, como: “parece que estou sonhando”; “o mundo parece falso”; “as pessoas parecem robôs”; “é como se tudo estivesse distante” ou “como se eu estivesse assistindo à minha vida de fora”.
Os objetos podem parecer sem vida, modificados ou estranhos. Sons podem parecer abafados, distantes ou excessivamente nítidos. Algumas pessoas referem alterações subjetivas da percepção do tempo, que parece passar mais lentamente ou mais rapidamente. Também podem ocorrer alterações subjetivas da percepção das cores, da luminosidade e da profundidade dos ambientes.
Outros sintomas13 frequentes incluem embotamento14 emocional, dificuldade de concentração, ansiedade intensa, medo de enlouquecer, sensação de vazio e preocupação persistente de que os sintomas13 indiquem uma doença neurológica grave. A desrealização frequentemente está associada aos sintomas13 físicos da ansiedade, como palpitações15, sudorese16, tremores e sensação de falta de ar.
O teste de realidade permanece preservado, ou seja, o indivíduo reconhece que a sensação é subjetiva e que o ambiente não sofreu alterações reais. Isso diferencia a desrealização dos transtornos psicóticos, nos quais há perda do contato com a realidade.
Os episódios podem durar minutos, horas, dias ou, em casos crônicos, persistirem por meses ou anos.
Como o médico diagnostica a desrealização?
O diagnóstico1 é fundamentalmente clínico, baseado na história detalhada e na descrição dos sintomas13 pelo paciente. O médico deve avaliar a frequência e a duração dos episódios, a intensidade do sofrimento, o impacto sobre a vida cotidiana, a presença de transtornos psiquiátricos associados, o uso de medicamentos ou drogas psicoativas e a existência de doenças neurológicas ou clínicas.
Os critérios diagnósticos do DSM-5-TR e da CID-11 exigem episódios persistentes ou recorrentes, preservação do teste de realidade e exclusão de outras doenças médicas, neurológicas, psiquiátricas ou relacionadas ao uso de substâncias que expliquem melhor os sintomas13.
O exame físico e o exame neurológico costumam ser normais, mas exames complementares podem ser necessários quando existem sinais17 atípicos, início súbito, alterações neurológicas focais, crises convulsivas, cefaleia18 importante ou suspeita de doença orgânica. Dependendo da avaliação clínica, podem ser solicitados exames laboratoriais, eletroencefalograma19 e exames de imagem do encéfalo20.
O diagnóstico1 diferencial deve ser realizado com transtornos de ansiedade, transtorno do pânico, depressão, transtornos dissociativos, transtornos psicóticos, epilepsia5 do lobo temporal21, enxaqueca7 com aura, doenças vestibulares9 e efeitos do uso ou abstinência de substâncias psicoativas.
Como o médico trata a desrealização?
O tratamento depende da causa, da intensidade dos sintomas13 e da presença de transtornos associados. A psicoterapia constitui uma das principais abordagens terapêuticas. A terapia cognitivo22-comportamental (TCC) possui as melhores evidências disponíveis, ajudando o paciente a compreender os sintomas13, reduzir o medo associado e modificar padrões de pensamento catastróficos. Quando há trauma psicológico associado, abordagens específicas para o tratamento do trauma, como a terapia focada no trauma e, em alguns casos, o EMDR (Dessensibilização23 e Reprocessamento por Movimentos Oculares), podem ser benéficas.
Medicamentos podem ser utilizados quando coexistem transtornos como ansiedade ou depressão. Os antidepressivos, especialmente os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS), são frequentemente empregados para tratar essas condições associadas, embora não exista medicamento aprovado especificamente para o tratamento da desrealização. Ansiolíticos podem ser utilizados por curto período em situações selecionadas, devido ao risco de dependência. Em casos específicos e refratários24, outras medicações podem ser consideradas por especialistas, embora as evidências científicas ainda sejam limitadas.
Durante as crises, técnicas de grounding (técnicas de ancoragem na realidade) podem ajudar o paciente a reconectar-se com o ambiente por meio de estímulos sensoriais concretos, como tocar objetos, identificar sons, observar detalhes visuais, sentir diferentes texturas ou concentrar-se na respiração.
Também são recomendados higiene adequada do sono, prática regular de atividade física, redução do estresse, limitação do consumo de álcool e cafeína e interrupção do uso de drogas psicoativas.
Como evolui a desrealização?
A evolução é bastante variável. Em muitas pessoas, a desrealização ocorre de forma transitória e desaparece espontaneamente após a resolução do fator desencadeante. Em outros casos, especialmente quando associada a transtornos ansiosos, depressivos ou ao TEPT, os episódios podem tornar-se recorrentes. Quando o quadro se cronifica, pode haver períodos alternados de melhora e piora ao longo dos anos. O estresse emocional, a privação de sono e o uso de substâncias psicoativas costumam agravar os sintomas13.
Pacientes que recebem diagnóstico1 e tratamento precoces geralmente apresentam melhor prognóstico25. A identificação e o controle dos fatores desencadeantes também influenciam positivamente a evolução. Embora a condição possa causar intenso sofrimento psicológico, a desrealização isoladamente não provoca deterioração cognitiva26, demência27, lesão28 cerebral nem evolução para psicose29. Muitos pacientes apresentam melhora significativa com psicoterapia, controle da ansiedade, tratamento das doenças associadas e mudanças no estilo de vida.
Quais são as complicações possíveis da desrealização?
As complicações da desrealização decorrem principalmente do sofrimento emocional crônico30 e do prejuízo funcional provocado pelos sintomas13 persistentes. Podem ocorrer ansiedade crônica, depressão, isolamento social, prejuízo acadêmico ou profissional, redução da qualidade de vida e crises de pânico. Alguns pacientes desenvolvem medo intenso de enlouquecer ou de possuir uma doença neurológica grave, o que pode levar à procura repetitiva por atendimento médico e ao desenvolvimento de ansiedade relacionada à saúde31 (antigamente denominada hipocondria).
Em casos mais graves, pode ocorrer comprometimento importante das relações interpessoais, dificuldade para manter atividades profissionais ou acadêmicas e maior risco de incapacidade funcional temporária, especialmente quando coexistem outros transtornos psiquiátricos.
Veja sobre "Mindfulness", "Psicoterapias", "Terapia cognitivo22-comportamental" e "Big Five (Cinco Grandes) da Psicologia".
Referências:
As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente dos sites da U.S. National Library of Medicine e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.











