Transtorno Explosivo Intermitente (TEI): entenda as causas, as características e o tratamento
O que é transtorno explosivo intermitente1?
O Transtorno Explosivo Intermitente1 (TEI) é um transtorno psiquiátrico classificado no grupo dos transtornos disruptivos, do controle de impulsos e da conduta, conforme o DSM-5-TR (Manual Diagnóstico2 e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição, texto revisado). Ele se caracteriza por episódios recorrentes de perda súbita do controle sobre impulsos agressivos, levando a explosões de raiva3 desproporcionais ao estímulo desencadeante, que podem se manifestar como agressões verbais graves ou comportamentos agressivos físicos contra objetos, animais ou pessoas.
Esses episódios são tipicamente breves, durando de alguns minutos até cerca de 30 minutos, e ocorrem de forma impulsiva, ou seja, não são premeditados nem planejados, surgindo como reação exagerada a situações de frustração, provocação ou estresse. Durante a explosão, o indivíduo apresenta sensação de perda de controle e, após o episódio, é comum ocorrer sensação inicial de alívio, seguida por culpa, vergonha ou arrependimento.
Trata-se de um transtorno relativamente comum, com prevalência4 estimada entre 2% e 7% da população ao longo da vida, podendo afetar homens e mulheres, embora o início seja mais frequente no final da infância, adolescência ou início da vida adulta. O transtorno é frequentemente subdiagnosticado, pois muitos indivíduos procuram ajuda devido às consequências interpessoais, profissionais ou legais de seus comportamentos, e não por reconhecerem que apresentam um transtorno psiquiátrico específico.
Quais são as causas do transtorno explosivo intermitente1?
O transtorno explosivo intermitente1 resulta de uma interação complexa entre fatores genéticos, neurobiológicos, psicológicos e ambientais, não havendo uma causa única identificável. Estudos familiares e com gêmeos indicam que existe contribuição genética significativa, com herdabilidade estimada entre 40% e 60%, sugerindo que algumas pessoas possuem predisposição biológica maior à impulsividade e à agressividade.
Além disso, alterações em sistemas de neurotransmissores, especialmente o sistema serotoninérgico, parecem desempenhar papel central, pois níveis reduzidos de atividade serotoninérgica estão associados a menor capacidade de inibir impulsos agressivos. Alterações nos sistemas dopaminérgico e noradrenérgico também contribuem para maior reatividade emocional.
Os fatores ambientais exercem influência importante, especialmente experiências adversas precoces, como abuso físico, emocional ou sexual, negligência5, exposição à violência doméstica ou crescimento em ambientes familiares instáveis ou excessivamente punitivos. Essas experiências podem interferir no desenvolvimento dos mecanismos cerebrais responsáveis pela regulação emocional.
Fatores neurobiológicos adquiridos, como traumatismo6 craniano, especialmente quando ocorre em idade precoce, também podem aumentar o risco. Da mesma forma, condições associadas ao neurodesenvolvimento, como TDAH, estão frequentemente presentes em indivíduos com esse transtorno, reforçando a ideia de que alterações nos circuitos cerebrais que regulam o controle dos impulsos desempenham papel fundamental.
Qual é a fisiopatologia7 do transtorno explosivo intermitente1?
O transtorno explosivo intermitente1 é considerado um transtorno da regulação emocional caracterizado por desequilíbrio entre sistemas cerebrais responsáveis pela geração das emoções e aqueles responsáveis por seu controle. Em indivíduos com esse transtorno, ocorre hiperatividade de estruturas do sistema límbico, especialmente a amígdala8, que é responsável pela detecção de ameaças e pela geração de respostas emocionais intensas.
Ao mesmo tempo, há redução da atividade do córtex pré-frontal, particularmente nas regiões orbitofrontal e ventromedial, que desempenham papel essencial na inibição de comportamentos impulsivos e na modulação das respostas emocionais. Como consequência, o cérebro9 torna-se menos capaz de regular adequadamente respostas emocionais intensas, permitindo que estímulos relativamente pequenos desencadeiem reações agressivas desproporcionais.
Além disso, observa-se redução da atividade serotoninérgica central, que normalmente exerce efeito inibitório sobre a agressividade, o que contribui para maior impulsividade. Alterações em sistemas dopaminérgicos e noradrenérgicos também favorecem maior reatividade emocional e menor tolerância à frustração.
Estudos de neuroimagem demonstram ainda alterações estruturais e funcionais em circuitos fronto-límbicos, incluindo redução de volume ou conectividade em regiões envolvidas no controle emocional, o que reforça o entendimento de que o transtorno tem base neurobiológica bem estabelecida.
Leia sobre "Transtornos da personalidade", "Transtorno dissociativo de identidade" e "Os vícios e as suas caraterísticas".
Quais são as características clínicas do transtorno explosivo intermitente1?
O transtorno manifesta-se por episódios recorrentes de agressividade impulsiva, desproporcional ao estímulo desencadeante e fora do padrão habitual de comportamento do indivíduo. Essas explosões podem ocorrer em resposta a situações relativamente triviais, como pequenas frustrações, discussões ou contratempos cotidianos.
Em alguns casos, os episódios consistem principalmente em explosões verbais, como gritos, insultos ou ameaças, que podem ocorrer com frequência elevada, causando prejuízo significativo nos relacionamentos interpessoais. Em outros casos, os episódios são menos frequentes, mas mais graves, envolvendo agressões físicas contra objetos, animais ou pessoas, podendo resultar em destruição de propriedade ou lesões10 físicas.
Muitos pacientes relatam que, antes da explosão, experimentam sensação crescente de tensão interna, irritabilidade intensa e sintomas11 físicos como taquicardia12, sudorese13, tremores e sensação de calor, refletindo ativação do sistema nervoso autônomo14. Durante o episódio, ocorre sensação de perda de controle. Após o episódio, é comum surgirem sentimentos de arrependimento, vergonha ou culpa.
Entre os episódios, o humor geralmente é normal, embora alguns indivíduos apresentem irritabilidade basal aumentada. É importante destacar que não há sintomas11 persistentes de mania ou psicose15 que expliquem o comportamento agressivo.
O transtorno frequentemente ocorre em associação com outras condições psiquiátricas, especialmente TDAH, transtornos por uso de álcool e outras substâncias, depressão, transtornos de ansiedade e transtornos de personalidade, o que pode influenciar sua gravidade e evolução.
Como o médico diagnostica o transtorno explosivo intermitente1?
O diagnóstico2 é clínico e baseado na avaliação detalhada da história do paciente e na aplicação dos critérios do DSM-5-TR pelo psiquiatra. O elemento central do diagnóstico2 é a presença de episódios recorrentes de falha em controlar impulsos agressivos, com comportamento claramente desproporcional à situação desencadeante e não premeditado.
Além disso, é necessário que esses episódios causem sofrimento significativo ou prejuízo funcional nas relações pessoais, profissionais ou sociais, e que não sejam explicados melhor por outro transtorno psiquiátrico, condição neurológica, doença médica ou uso de substâncias.
Os exames complementares não são utilizados para confirmar o diagnóstico2, mas podem ser solicitados quando há suspeita de causas orgânicas, como alterações neurológicas, epilepsia16, distúrbios metabólicos, disfunções tireoidianas ou efeitos de substâncias. Nesses casos, podem ser realizados exames laboratoriais, eletroencefalograma17 ou exames de imagem cerebral, conforme a situação clínica.
Como o médico trata o transtorno explosivo intermitente1?
O tratamento é baseado na combinação de psicoterapia e farmacoterapia, sendo essa abordagem combinada a mais eficaz.
A Terapia Cognitivo18-Comportamental (TCC) é considerada componente fundamental do tratamento, pois ajuda o paciente a identificar sinais19 precoces de ativação emocional, compreender os gatilhos das explosões e desenvolver estratégias mais eficazes de regulação emocional. Essa abordagem permite que o indivíduo aprenda a interromper o ciclo que leva à explosão, utilizando técnicas de reestruturação cognitiva20, controle da impulsividade e manejo do estresse.
A farmacoterapia é frequentemente utilizada, especialmente em casos moderados ou graves. Os medicamentos mais estudados são os inibidores seletivos da recaptação da serotonina, como fluoxetina e sertralina, que podem reduzir significativamente a impulsividade e a agressividade. Em alguns casos, também podem ser utilizados estabilizadores de humor, como valproato ou carbamazepina, ou antipsicóticos atípicos em baixa dose, especialmente quando os sintomas11 são graves ou resistentes ao tratamento inicial.
O tratamento deve ser individualizado e acompanhado regularmente por profissional de saúde21 mental.
Como evolui o transtorno explosivo intermitente1?
Sem tratamento, o transtorno tende a apresentar curso crônico22, com episódios recorrentes ao longo de muitos anos, podendo causar prejuízos significativos na vida pessoal e profissional. Em alguns casos, observa-se redução gradual da frequência e intensidade dos episódios com o avanço da idade.
Com tratamento adequado, muitos pacientes apresentam redução significativa da frequência e intensidade das explosões dentro de algumas semanas a meses, com melhora progressiva do controle emocional e do funcionamento interpessoal.
Embora a remissão completa seja possível, recidivas23 podem ocorrer, especialmente em situações de estresse intenso ou quando o tratamento é interrompido precocemente. O tratamento contínuo e o reconhecimento precoce dos sintomas11 contribuem para melhor prognóstico24.
Quais são as complicações possíveis com o transtorno explosivo intermitente1?
O transtorno explosivo intermitente1 pode causar consequências importantes em diversas áreas da vida. No âmbito interpessoal, pode levar a conflitos familiares, rompimento de relacionamentos, isolamento social e dificuldades conjugais. No ambiente profissional, pode resultar em advertências, demissões e instabilidade ocupacional.
Também há risco aumentado de problemas legais, incluindo envolvimento em agressões físicas ou violência doméstica. Do ponto de vista psiquiátrico, o transtorno está associado a maior risco de depressão, ansiedade, transtornos por uso de substâncias e comportamento suicida.
Além disso, a ativação repetida do sistema nervoso25 simpático26 durante episódios de explosão emocional pode contribuir, ao longo do tempo, para aumento do risco de hipertensão arterial27 e doenças cardiovasculares28.
O reconhecimento precoce e o tratamento adequado são fundamentais para reduzir essas complicações e melhorar a qualidade de vida do paciente.
Veja também: "Saúde21 mental - o que é? Como podemos reconhecer se algo anda errado?"
Referências:
As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente dos sites da Revista Brasileira de Neurologia e Psiquiatria – vol.19, no. 2. 2015 e da Mayo Clinic.
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.










