Síndrome do vômito cíclico: a doença que provoca episódios repetidos e intensos de náuseas e vômitos
O que é a síndrome1 do vômito2 cíclico?
A Síndrome1 do Vômito2 Cíclico (SVC) é um distúrbio funcional do trato gastrointestinal classificado atualmente entre os distúrbios da interação intestino–cérebro, caracterizado por episódios recorrentes, estereotipados e intensos de vômitos3 incoercíveis, separados por períodos completamente assintomáticos ou com sintomas4 mínimos.
Trata-se de uma condição sem causa estrutural identificável, na qual o paciente apresenta crises abruptas de náusea5 intensa seguidas de vômitos3 repetitivos que podem ocorrer várias vezes por hora durante o pico da crise, e que duram de algumas horas a até cerca de 5 a 10 dias (mais frequentemente entre 24 e 72 horas). Entre as crises, o paciente retorna ao seu estado basal, sem sintomas4 gastrointestinais significativos, o que diferencia a SVC de doenças com sintomas4 persistentes, como gastroparesia6, dispepsia7 funcional grave ou refluxo gastroesofágico8 complicado.
A intensidade das crises pode ser extremamente incapacitante e muitos pacientes descrevem o quadro como um dos episódios de náusea5 mais intensos já experimentados, sendo frequente a necessidade de atendimento emergencial para hidratação intravenosa e controle dos sintomas4.
A síndrome1 foi descrita pela primeira vez em 1882 pelo médico inglês Samuel Gee, inicialmente em crianças, mas hoje se sabe que pode ocorrer em todas as faixas etárias, inclusive em adultos. Embora seja considerada relativamente rara, com prevalência9 estimada de aproximadamente 0,3% a 2% na população pediátrica, acredita-se que seja subdiagnosticada, especialmente em adultos.
Quais são as causas da síndrome1 do vômito2 cíclico?
A causa exata da Síndrome1 do Vômito2 Cíclico permanece incompletamente compreendida, sendo considerada uma condição multifatorial que envolve fatores genéticos, neuroendócrinos, autonômicos e ambientais. Há forte evidência de participação genética, particularmente relacionada a alterações na função mitocondrial, e estudos identificaram polimorfismos em genes mitocondriais, como MT-TL1 e MT-ND1, em parte dos pacientes, especialmente em casos familiares. Essas alterações ajudam a explicar o padrão de transmissão materna observado em algumas famílias, já que o DNA mitocondrial é herdado da mãe.
Existe também forte associação com enxaqueca10. Entre 50% e 80% dos pacientes ou de seus familiares de primeiro grau apresentam história de enxaqueca10, o que levou muitos especialistas a considerar a SVC uma condição pertencente ao espectro das síndromes relacionadas à enxaqueca10, especialmente em crianças.
Outros fatores que parecem contribuir para o desenvolvimento ou desencadeamento das crises incluem disfunção do eixo hipotálamo11-hipófise12-adrenal com resposta exagerada ao estresse, alterações do sistema nervoso autônomo13, hiperexcitabilidade neuronal central, alterações na microbiota14 intestinal e o uso crônico15 de cannabis. Neste último caso, deve-se considerar a síndrome1 da hiperêmese canabinoide, que pode simular ou coexistir com a SVC, sendo considerada atualmente uma condição distinta, mas frequentemente incluída no diagnóstico16 diferencial.
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Qual é a fisiopatologia19 da síndrome1 do vômito2 cíclico?
A fisiopatologia19 da Síndrome1 do Vômito2 Cíclico envolve uma complexa interação entre sistema nervoso central20, sistema nervoso21 entérico, vias autonômicas e mecanismos neuroendócrinos. De forma simplificada, acredita-se que estímulos desencadeantes ativem circuitos centrais responsáveis pela resposta ao estresse e pelo controle do vômito2.
O processo provavelmente começa com ativação de estruturas do sistema límbico e do hipotálamo11, que desencadeiam liberação do hormônio22 liberador de corticotropina (CRH). Isso leva à ativação do eixo hipotálamo11-hipófise12-adrenal, com aumento de catecolaminas e outros mediadores do estresse. Paralelamente, ocorre ativação de circuitos neurais que envolvem o núcleo do trato solitário e a área postrema23, regiões do tronco cerebral24 responsáveis pelo controle do reflexo do vômito2.
Diversos neurotransmissores participam desse processo, incluindo serotonina (especialmente via receptores 5-HT3), substância P (via receptores de neurocinina-1 – NK1) e dopamina25. Esses mecanismos ajudam a explicar a eficácia de medicamentos antieméticos26 serotoninérgicos, antagonistas de NK1 e terapias antimigranosas em muitos pacientes.
Outra hipótese fisiopatológica importante envolve disfunção mitocondrial, que comprometeria a produção energética neuronal e aumentaria a susceptibilidade27 a crises desencadeadas por estresse metabólico. Durante as crises, podem ser observadas manifestações de hiperatividade autonômica, como taquicardia28, hipertensão arterial29, sudorese30, febre31 baixa, leucocitose32 e elevação do cortisol plasmático, reforçando o conceito de tempestade autonômica associada ao estresse fisiológico33.
Quais são as características clínicas da síndrome1 do vômito2 cíclico?
A apresentação clínica da Síndrome1 do Vômito2 Cíclico costuma ser altamente estereotipada para cada paciente, o que frequentemente permite suspeita diagnóstica baseada na história clínica.
As crises geralmente evoluem em fases clínicas relativamente bem definidas. A primeira é a fase prodrômica, que pode ocorrer horas antes do início dos vômitos3 e é caracterizada por náusea5 crescente, ansiedade intensa, sensação de pânico, palidez, sudorese30 e dor abdominal. Muitos pacientes reconhecem essa fase e conseguem prever o início da crise.
Em seguida ocorre a fase emética (ou fase de vômitos3), marcada por vômitos3 repetitivos, intensos e frequentemente incapacitantes, acompanhados de náusea5 persistente, hipersalivação, fadiga34 extrema e incapacidade de tolerar ingestão oral. Os vômitos3 podem ocorrer diversas vezes por hora e podem conter conteúdo gástrico35, biliar e, ocasionalmente, pequenas quantidades de sangue36 decorrentes de irritação da mucosa37.
Durante essa fase, alguns pacientes relatam alívio parcial ao tomar banhos quentes ou permanecer sob água quente, um comportamento também descrito na síndrome1 da hiperêmese canabinoide.
A terceira fase é a fase de recuperação, na qual ocorre cessação relativamente abrupta dos vômitos3, seguida por melhora progressiva da náusea5, retorno do apetite e recuperação da energia nas horas ou dias seguintes.
O início das crises costuma ocorrer durante a madrugada ou nas primeiras horas da manhã, e a duração média varia entre 24 e 72 horas, embora alguns episódios possam durar mais. A frequência é variável, podendo ocorrer desde um episódio por ano até vários episódios por mês, sempre com intervalos assintomáticos entre eles.
Em crianças, é comum a associação com palidez intensa, dor abdominal, vertigem38 e sintomas4 compatíveis com variantes de enxaqueca10. Em adultos, observa-se com maior frequência comorbidades39 psiquiátricas, como ansiedade, depressão e transtorno do pânico.
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Como o médico diagnostica a síndrome1 do vômito2 cíclico?
O diagnóstico16 da Síndrome1 do Vômito2 Cíclico é fundamentalmente clínico, baseado na história típica e na exclusão de outras causas de vômitos3 recorrentes.
Atualmente, os critérios diagnósticos mais utilizados derivam dos critérios de Roma IV para distúrbios da interação intestino–cérebro. De forma geral, eles incluem episódios recorrentes de vômitos3 intensos e estereotipados, com duração limitada, separados por períodos de bem-estar, e ausência de outra doença que explique os sintomas4 após avaliação adequada.
Exames complementares são frequentemente solicitados não para confirmar a SVC, mas para excluir diagnósticos alternativos. Entre eles podem ser solicitados hemograma, eletrólitos40, função renal41, glicemia42, provas de função hepática43, amilase ou lipase e gasometria, especialmente durante crises intensas.
Dependendo do contexto clínico, pode ser necessário investigar obstrução intestinal, doenças metabólicas, tumores intracranianos, insuficiência44 adrenal (doença de Addison), porfiria45 aguda intermitente46 ou distúrbios neurológicos. Exames como endoscopia47 digestiva alta, ultrassonografia48 abdominal, tomografia ou ressonância magnética49 do encéfalo50 podem ser indicados em situações selecionadas.
Em crianças pequenas ou quando há suspeita clínica, pode ser realizada triagem metabólica com dosagem de ácidos orgânicos urinários ou outros testes metabólicos.
Como o médico trata a síndrome1 do vômito2 cíclico?
O tratamento da Síndrome1 do Vômito2 Cíclico envolve estratégias para controle das crises agudas e terapias preventivas destinadas a reduzir a frequência e a intensidade dos episódios.
Durante as crises, o tratamento é principalmente de suporte, com hidratação intravenosa, correção de distúrbios eletrolíticos e controle intensivo da náusea5 e dos vômitos3. Antieméticos26 como ondansetrona ou outros antagonistas de receptores 5-HT3 são frequentemente utilizados. Em alguns pacientes, especialmente aqueles com história de enxaqueca10, triptanos administrados precocemente na fase prodrômica podem abortar ou reduzir a intensidade da crise.
Medicamentos sedativos, como benzodiazepínicos, podem ajudar a reduzir ansiedade e hiperatividade autonômica durante episódios graves. Anti-histamínicos sedativos, como difenidramina, também podem ser utilizados em alguns protocolos terapêuticos.
O tratamento profilático é indicado principalmente em pacientes com crises frequentes ou graves. Entre as terapias mais utilizadas está a amitriptilina, considerada uma das principais opções de primeira linha, especialmente em adolescentes e adultos. Outras opções incluem topiramato, propranolol (mais utilizado em crianças), aprepitanto, zonisamida ou levetiracetam, dependendo do perfil do paciente.
Além do tratamento farmacológico, é importante identificar e evitar fatores desencadeantes, como estresse intenso, privação de sono, jejum prolongado, infecções51 ou determinados alimentos. Intervenções comportamentais, como terapia cognitivo52-comportamental e técnicas de biofeedback, podem ser úteis em alguns pacientes.
Nos casos associados ao uso de cannabis, a suspensão completa da substância é essencial, pois a continuidade do consumo pode perpetuar ou agravar os episódios.
Como evolui a síndrome1 do vômito2 cíclico?
A Síndrome1 do Vômito2 Cíclico pode ser uma condição crônica e desafiadora, mas o reconhecimento precoce e a adoção de estratégias terapêuticas adequadas melhoraram significativamente o prognóstico53 nas últimas décadas.
Com tratamento profilático adequado e manejo adequado das crises, muitos pacientes conseguem reduzir substancialmente a frequência, a intensidade e a duração dos episódios, mantendo qualidade de vida satisfatória entre as crises.
Em crianças, aproximadamente 50% a 70% dos casos apresentam remissão ou melhora significativa ao longo da adolescência, e parte desses pacientes evolui posteriormente para enxaqueca10 típica na vida adulta. Em adultos, o curso tende a ser crônico15 e intermitente46, com períodos de melhora e recaída ao longo dos anos.
Mesmo com tratamento otimizado, uma parcela dos pacientes continua apresentando crises graves, o que pode gerar impacto importante na qualidade de vida.
Quais são as complicações da síndrome1 do vômito2 cíclico?
As complicações da Síndrome1 do Vômito2 Cíclico estão geralmente relacionadas à intensidade e à repetição dos episódios de vômitos3. Entre as complicações médicas mais comuns estão desidratação54 grave, hipocalemia55, alcalose56 metabólica, lesões57 da mucosa37 esofágica e lacerações de Mallory-Weiss, que podem causar hemorragia digestiva alta58. Em situações raras podem ocorrer hematoma59 intramural do esôfago60 ou ruptura esofágica (síndrome1 de Boerhaave).
Episódios repetidos também podem levar a desnutrição61, perda de peso e comprometimento nutricional, especialmente em pacientes com crises frequentes.
Além das complicações físicas, a síndrome1 pode causar impacto psicossocial significativo, incluindo absenteísmo escolar ou profissional, ansiedade antecipatória relacionada às crises, depressão e redução da qualidade de vida. Em alguns casos, pode ocorrer uso excessivo ou inadequado de analgésicos62 opioides ou sedativos, especialmente quando há dor abdominal intensa associada.
Em gestantes com história prévia de SVC, pode haver maior risco de quadros graves de vômitos3 durante a gestação, o que exige acompanhamento médico cuidadoso.
Apesar dessas possíveis complicações, a maioria dos pacientes apresenta melhora significativa com diagnóstico16 correto, tratamento adequado e acompanhamento clínico regular, podendo manter vida funcional entre os episódios.
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Referências:
As informações veiculadas neste texto foram extraídas principalmente dos sites da U.S. National Library of Medicine e da Cleveland Clinic.
As notas acima são dirigidas principalmente aos leigos em medicina e têm por objetivo destacar os aspectos mais relevantes desse assunto e não visam substituir as orientações do médico, que devem ser tidas como superiores a elas. Sendo assim, elas não devem ser utilizadas para autodiagnóstico ou automedicação nem para subsidiar trabalhos que requeiram rigor científico.










